Automedicação: conheça os riscos de tomar remédio por conta própria

Automedicação: conheça os riscos de tomar remédio por conta própria

A pandemia de coronavírus colocou a cloroquina e o ibuprofeno nas manchetes e nas conversas. Veja o que o hábito de ingerir medicamentos sem acompanhamento médico pode causar e conheça os que estão entre os mais consumidos, inclusive por atletas

A automedicação é um hábito no Brasil, e um hábito perigoso. O risco existe em qualquer época, e está ainda mais evidente agora, durante a pandemia por Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. De acordo com a pesquisa do Conselho Federal de Farmácia (CFF) de 2019, o costume de ingerir remédios por conta própria faz parte da rotina de 77% dos brasileiros. Ou seja, uma grande parcela da população assume um risco que pode causar sérias consequências à própria saúde; inclusive atletas, que usam analgésicos e anti-inflamatórios por conta própria. No momento atual, de confinamento e medo do coronavírus, esse hábito leva inclusive à compra de medicamentos cujo efeito contra a Covid-19 sequer foi comprovado, como é o caso da cloroquina e da e hidroxicloroquina, que esgotaram nas farmácias de todo o país, deixando os pacientes com malária ou doenças autoimunes, que realmente precisam delas, sem tratamento.

Causas

A automedicação vem se tornando comum devido à falta de médicos e à dificuldade de acesso a estes profissionais, como explica o clínico geral Antônio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.

– Isso ocorre porque não tem médico disponível para todas as situações necessárias. Como não se tem acesso ao médico particular, o SUS é uma fila enorme, a pessoa acaba se automedicando baseado nas experiências anteriores que já teve, como alguma doença no passado, exemplo de uma gripe muito forte – explica.

Outro motivo que leva à automedicação é o desconhecimento dos riscos por parte do público. Dessa forma, muitas pessoas também buscam informações através de terceiros, uma vez que não conseguiu ouvir uma opinião médica a respeito do tratamento a ser feito. Procura-se escolher familiares, balconistas de farmácia, amigos, vizinhos e, até mesmo, confiar em publicidade.

Alguns dos riscos da automedicação:

  1. Uso de remédio inadequado para o problema de saúde – isso pode gerar sobrecarga de órgão e não vai tratar o problema;
  2. Interação medicamentosa – quando se usa mais de uma medicação sem saber que elas não devem ser usadas juntas, sob o risco de reduzir ou potencializar o efeito de um dos fármacos, causando efeitos colaterais imprevisíveis;
  3. Desconhecimento do próprio histórico médico – isso pode levar a reações alérgicas, por exemplo, com consequências graves;
  4. Dosagem insuficiente ou superdosagem – no primeiro caso, o medicamento não terá força para tratar o problema; no segundo, pode haver intoxicação e até levar à morte.

Armazenamento impróprio: usar medicamentos que já se têm em casa, mas não ficar atento à data de validade e à forma que ele está armazenado. Umidade e calor, por exemplo, não são amigos da conservação.

Coronavírus: cloroquina e ibuprofeno

Cloroquina e da e hidroxicloroquina: são medicamentos usados no tratamento da malária e de doenças autoimunes como o lúpus e artrite. Há uma série de estudos sendo feitos sobre os efeitos desses remédios no tratamento da Covid-19, alguns promissores. Mas o uso do remédio está em fase de testes e ele só deve ter tomado com prescrição médica, sob risco de intoxicação, o que já causou a morte de um homem nos Estados Unidos e a internação de pessoas na Nigéria. Além disso, estocar cloroquina em casa tem levado ao desabastecimento de farmácias, deixando quem precisa sem tratamento.

Ibuprofeno: no dia 17 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou que não se usasse ibuprofeno em pacientes com suspeita ou confirmação de coronavírus, após uma pesquisa científica sugerir que pacientes com diabetes e hipertensão tratados com ibuprofeno tinham mais riscos de agravamento no quadro da Covid-19. No entanto, alguns dias depois a OMS retirou a restrição, alegando que não há comprovação de tal agravamento. O Ministério da Saúde brasileiro, por outro lado, segue recomendando sua substituição por paracetamol em caso de febre e dores.

Tipos de remédios mais usados

Entre os principais tipos de remédios mais ingeridos na automedicação, estão aqueles mais acessíveis e, geralmente, considerados como de baixo risco, casos dos analgésicos, anti-inflamatórios, relaxantes musculares e antitérmicos, segundo pesquisa do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) de 2018.

Em nenhum deles, se faz necessário apresentar a receita médica na hora da compra. Para entender melhor o que cada tipo de remédio pode provocar, vamos conhecer os efeitos colaterais na automedicação:

Analgésicos: gastrite, dor de estômago, altera a pressão arterial, além de poder mascarar um quadro clínico por não tirar a inflamação;

Anti-inflamatórios: gastrite, sangramento digestivo, inflamação no intestino, hipertensão, piora da função renal, alterações de coagulação e doenças cardiovasculares;

Relaxante muscular: queda de pressão, tontura, sonolência e risco de dependência do medicamento;

Antitérmicos: sangramento gástrico, diminuição de células de defesa do organismo o que pode agravar o quadro clínico.

Ainda que os medicamentos mais conhecidos da população, como o nimesulida, diclofenaco e paracetamol, aparentem ser inofensivos à primeira vista, podem se tornar verdadeiras ameaças à saúde caso sejam consumidos em doses altas e sem acompanhamento médico correto. Por isso, não se recomenda indicar o mesmo remédio tomado por outras pessoas, já que cada pessoa precisa de um tratamento individualizado e cada histórico médico é diferente dos demais.

Perigos da automedicação

O grande perigo da automedicação é aceitar um risco desnecessário ao próprio corpo, menosprezando os efeitos que os remédios podem provocar. Pressupõe-se que, como o medicamento não precisa de prescrição médica, não terá maiores consequências.

– Na automedicação, deve haver uma conscientização não somente dos efeitos imediatos que o remédio apresenta, mas também da interação que pode haver com outros medicamentos. Além disso, existe a possibilidade de mascarar certas doenças e retardar um diagnóstico. É preciso ter uma consciência por parte das pessoas de que se está correndo um risco ao se automedicar – alerta o clínico geral Lopes.

A reação, aliás, pode ser alérgica a um remédio ingerido de maneira errada, o que leva a diversos problemas de saúde. O próprio paracetamol, analgésico indicado para diminuir a febre e facilmente encontrado nas farmácias, é um exemplo com o qual se deve tomar bastante cuidado, lembra a médica do esporte Germana Martiniano.

– Qualquer medicação, por mais simples e comum que seja, sempre tem seus riscos. Por exemplo, a utilização de um simples paracetamol, em doses excessivas, pode causar uma hepatite medicamentosa fulminante que pode, até mesmo, levar o indivíduo a morte. É raríssimo, mas pode acontecer. Além de problemas hepáticos, podem sobrecarregar os rins, irritar o estômago e atrapalha na recuperação muscular. Por isso, é sempre aconselhável procurar assistência antes de utilizar qualquer medicação, por mais “inocente” que seja ela – avisa.

Outro problema encontrado na automedicação é no armazenamento impróprio de medicamentos nas residências. A famosa “maletinha de remédios” ou a gaveta de medicações é um perigo e tanto se não houver um cuidado criterioso. Não deixe medicamentos em locais úmidos (casos de banheiro e cozinha), muito menos ignore o prazo de validade nas caixinhas. Evite, aliás, retirar a cartela dos comprimidos da embalagem original, levando a prejudicar a estabilidade do remédio, além de fazer o descarte de informações importantes ao paciente, como a bula.

Automedicação entre atletas

O costume da automedicação também é visto de forma corriqueira entre os atletas, sobretudo os amadores, visto que os profissionais necessitam de acompanhamento de especialistas para não serem flagrados ingerindo substâncias proibidas que levem ao doping.

– É bastante comum a autoadministração de medicamentos e suplementos por atletas sem supervisão médica. Essa prática ocorre pela melhora das queixas que levaram o paciente a utilizá-lo sem, na maioria das vezes, terem efeitos adversos. Em 2016 foi publicado um trabalho francês com corredoras amadoras que constatou que 34,6% delas fizeram usos de medicamentos por conta própria em períodos pré-competição, visando melhorar suas dores para terem um melhor desempenho esportivo – revela.

No esporte, os perigos pela automedicação são semelhantes aos do público em geral, e os mais usados são analgésicos e anti-inflamatórios. Em certos casos, a utilização indiscriminada de anti-inflamatórios antes de treinos pode acarretar sérias consequências, tais como elevar doenças cardiovasculares e problemas nos rins e fígados.

Além deles, outros dois tipos de medicamentos costumam estar entre os mais ingeridos pelos atletas na automedicação: a Vitamina D e antialérgicos. Vamos saber os efeitos que cada um apresenta:

Vitamina D: desidratação, excesso de urina, desorientação e pedra nos rins;

Antialérgico: hipertensão, insônia, arritmia cardíaca, problemas cardiovasculares e tremores.

Martiniano lembra que dores musculares frequentes nos treinos podem ser tratadas sem o uso da automedicação. Em situações que não haja dores muito fortes indicando um princípio de lesão, existem alternativas benéficas em vez da ingestão de remédios.

– Alongamentos, massagens, gelo, compressas mornas, compressão pneumática (as famosas Recovery Boots) isoladas ou em associação com crioterapia (terapia com gelo) são técnicas utilizadas para ajudar na recuperação dos treinos. Muitos esquecem que uma alimentação balanceada vai fornecer os nutrientes adequados e necessários para uma recuperação adequada – completa.

Fonte: Globo Esporte

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